Antônio Setin: da marcenaria do fundo do quintal à presidência de uma grande incorporadora

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Conheça a história de Antônio Setin, criador de uma das maiores incorporadoras que leva seu sobrenome. 

De marceneiro no quintal de casa a presidente de uma das maiores incorporadoras do país. Antônio conta nesta entrevista, sua trajetória de vida, como foi entrar nesse ramo e qual a sua perspectiva sobre o setor imobiliário. 

Para quem ainda não conhece, a SETIN tem mais de 20 mil imóveis e 1,8 milhão de metros quadrados construídos. A empresa se destaca no desenvolvimento, planejamento e execução de obras de diversas naturezas, geralmente destinadas aos públicos A e B.

Como que foi esse começo da sua carreira?

A empresa tem pouco mais de 40 anos, e muito antes disso comecei a trabalhar como operário aos 13 anos. Tive a grande oportunidade de ter sido filho de pais muito pobres, semi-analfabetos, e eu pude extrair alguns objetivos na vida. Acho que eu cheguei aqui por uma série de razões, mas uma das coisas que pensei naquele tempo era que um dia conseguiria conquistar a compra de um carro e uma casa com meu próprio esforço. 

Outro ponto que chama atenção é que você é arquiteto. Então, a parte de estética, design dos teus empreendimentos é uma coisa que chama muita atenção também. Como é que funciona?

Eu sempre fui muito ligado em estética, desde que eu não tinha a menor chance de lidar na prática com isso, em função da condição de vida. Em uma família que falta às vezes alimento, estética é uma coisa de curtíssimo plano. Mas também, por acaso na vida, acabei fazendo arquitetura. Eu sempre valorizei a realização, mais pela realização do que pelo lucro.

Por que entrar nesse mercado, como começou esse desejo para entrar no mercado imobiliário e como que foi isso ao longo da sua carreira, esses altos e baixos do próprio setor?

Quando comecei a fazer mercado imobiliário de maneira um pouco mais profissional, eu tinha por volta de 21/22 anos, estava saindo da faculdade. Falei "bom, agora eu vou fazer uma coisa que eu gosto". Comprei uma casinha na Zona Norte de São Paulo, fiz meu escritoriozinho, e comecei também a fazer pequenas casas. Um dia um amigo descobriu e disse assim "Antônio, você está ficando louco, porque você está começando um negócio que todo mundo está quebrando”. Isso foi em 1978, aproximadamente. Eu fui para casa pensando muito nisso, e no dia seguinte eu não lembrava mais e continuei fazendo aquilo que era o meu sonho, estava realizando um sonho.

Você começou com residenciais no início da operação da Setin e você, ao longo do tempo, foi um dos responsáveis por um dos maiores construtores incorporadores de hotéis no Brasil. Como foi essa transição e o momento de você entrar no setor hoteleiro?

Quando Collor assumiu e tirou o dinheiro de todos nós aqui,  foi um momento muito difícil para qualquer pessoa ou empresário. Isso me deixou bastante preocupado porque eu achei que eu estava numa atividade que, a qualquer momento, poderia acabar. Cheguei a pensar em construir hospitais e por pouco não fiz, mas eu tinha naquele momento dois terrenos, que eram terreno enigmáticos, eu pensava "o que fazer nesse terreno?". 

Aí comecei a pensar em hotel, eu não entendia nada além de usufruir como cliente, e acabou-se viabilizando as construções em dos dois terrenos. Um deles era aquele grande mico, eu olhava para aquele terreno antes de comprá-lo e me parecia uma coisa bem esquisita, mas o dia em que eu fui até ele, subir na caravela e vi a vista que ele tinha, e a microrregião que era o entorno dele, realmente fiquei muito bem impressionado. Então comprei o terreno e fiz o meu primeiro hotel. 

Acabei conhecendo, dentre as cadeias hoteleiras, o grupo Accor. Fiz então meu primeiro hotel que hoje se chama a Pullman.Fiz o primeiro Grand Mercure e trouxe algumas bandeiras hoteleiras que pertence ao grupo Accor. Em decorrência dessa experiência de investimento em hotelaria,  acabei estudando, foram dois anos de trabalho jurídico muito intenso e consegui viabilizar, o que hoje é muito conhecido, o Condo-Hotel. E em função de seu desenvolvimento, fiz 35 hotéis no Estado de São Paulo.

 Como você vê o mercado hoteleiro?

O mercado hoteleiro, é extremamente cíclico, ele responde ao que PIB duas vezes, para cima e para baixo. Então, é um investimento complicado que normalmente frustram as pessoas, especialmente, aquelas que falam assim "ah, eu tenho um terreno, vou fazer vou fazer um hotel". É ao contrário, você tem que dizer "vou fazer um hotel, vou estudar que hotel vou fazer e aí vou comprar o terreno apropriado para esse hotel".

Você passou por várias crises, foi e voltou, mas sempre conseguiu superar. Qual é o princípio por trás disso, o que faz você superar a crise que muitos não conseguem?

Eu sempre fui otimista, mas com cautela. Essa foi a cultura do meu pai, que não tinha dinheiro, mas ele cumpria com as obrigações sempre antecipadamente. Então, um dos meus princípios era pagar tudo em dia. Consigo fazer isso já há mais de 40 anos, mesmo com todas as crises, nunca deixei de pagar ninguém no prazo. 

Como não perecer nas crises? Acho que imaginando que quando você está em bons momentos algo ruim pode vir, então, você tem que estar com o pé muito preso ao chão, sem fazer grandes aventuras, sem fazer grandes apostas. 

Tem alguma que mais machucou, que você viu "essa vai ser difícil de superar", alguma coisa do tipo?

 Sem dúvida nenhuma a que começou em 2014 e durou até 2018/2019. 

Mudando um pouco de tema, você foi pioneiro, tem um histórico importante no centro de São Paulo. Qual que é a tua visão hoje, porque os prédios estão prontos, a maioria está ocupada? O que falta realmente para o centro dar certo?

Eu fui para o centro, porque lá na minha infância, as poucas vezes que ia para o centro de ônibus ou a pé, eu saía da Zona Norte de São Paulo. Às vezes, meu pai a pé para economizar o dinheiro do ônibus, mas eu via aquelas pessoas do centro elegantes, as mulheres de vestidos longos, os caras de paletó e gravata, achava aquilo o máximo. 

Eu fiquei triste de ver o centro se deteriorar tanto após os anos 90 e acho que o que falta para o centro voltar a ser o que são todos os centros das grandes cidades do mundo,  é vontade política. O centro São Paulo é grande, é a parte mais antiga que tem edifícios maravilhosos que podiam estar em Paris tranquilamente se fossem bem conservados. Então, acho que o centro tem tudo para dar certo. 

As pessoas que foram para o centro estão ocupando seus edifícios? Eram aquelas que você imaginava?

Em parte, sim. Mas, eu tive uma surpresa muito agradável quando entreguei o meu primeiro edifício, na Avenida São João, em um lugar que era a cracolândia. No coquetel de entrega, tinham famílias, casais com filhos, e tinha uma senhora muito elegante com a filha de média idade, também elegante, e uma neta de uns 18 anos. Aí eu fui conversar um pouco com eles e eu fiquei impressionado, porque são pessoas ricas que moram no centro, que gostam do centro e a neta falou assim "ah, acho que eu quero morar aqui", eles tinham comprado para investimento. E nos outros edifícios, que são apartamentos mais compactos, são usuários pessoas que eu imaginava. 

São singles, as pessoas que trabalham à noite, é mais comum a gente imaginar que todos trabalham  de dia, mas existe um contingente enorme de enfermeiros, médicos, artistas, policiais, restaurantes que trabalham à noite, então, são essas pessoas normalmente que tem usado, além de turistas. 

Contando um pouco da história da empresa, você virou uma referência em hotéis, virou uma referência hoje no centro, mas olhando um pouco para história da empresa ali naquele momento, principalmente da abertura de capital das grandes incorporadoras. Foi ali que vocês pensaram em abrir capital da empresa? Depois, logo na sequência, vocês fizeram uma fusão com a Klabin. Como foi esse momento na empresa de vocês?

Foi um momento de pânico. Você imagina que os seus pares ou empresas do seu tamanho ou menores, de repente, viraram enormes. Então, fiquei me  debatendo mais de ano, vendo tudo, que caminho eu iria e acabei sofrendo uma abordagem em 2007. 

Isso tudo aconteceu em 2005, os IPOs. Mas em 2007, fui abordado pela Klabin Segall. Em um momento pós-fusão, uma fase  turbulenta  demais que foi aquela crise americana que desencadeou uma crise mundial que todo mundo achava que o mundo ia acabar. E em seis meses, não chegou a um ano, não só a crise acabou como o mercado bombou, mas eu estava lá na Klabin Segall, imagina que tudo caminhava muito bem. 

Em 2008, começou a chegar a crise, em 2009 precisávamos de uma porta enorme de capital, coisa que não era possível porque o mundo estava em crise. Aí nós vendemos então o controle da empresa, um espanhol polêmico que esteve aqui no Brasil, quase que de maneira relâmpago, fez uma série de aquisições e depois desapareceu do Brasil. E a nossa empresa  foi parar na mão desse espanhol em parceria com a Agra, que por coincidência, tínhamos uma série de incorporação juntos.

Agora está voltando esse tema de IPO. Provavelmente os bancos estão voltando a te abordar. Como está a tua cabeça em relação a isso?

Esse mundo é muito louco, porque no final do ano passado se alguém me dissesse que haveria IPO de real estate no Brasil, ou follow-one como está acontecendo com o E Tec, Trisul, diria internamente "Esse cara está ficando louco!". E nós estamos vivendo isso, de fato. 

Existe uma liquidez muito grande, o mercado imobiliário está voltando porque o investidor está tirando dinheiro para colocar em ativos, ações, e imóveis. Os fundos já estão procurando as empresas. Sim, já nos procuraram.

Depois desse Episódio com a Klabin, a venda para o espanhol, acabou virando a PDG. Para quem não conhece um pouco dessa história, a Setin nunca fechou, a marca Setin se manteve. Como foi essa retomada da Setin?

Quando vendi o controle da Klabin, fiquei feliz demais e aliviado,  porque a gente via o caixa da Klabin precisando de aporte pesado. E com nossos sócios, podíamos aportar a nossa parte, mas o mercado não queria. Aquilo me deixou em pânico. E aí quando eu vendi o controle, uns dias antes de receber, falei com a minha esposa "bom, agora se prepara, porque eu só vou viajar. Agora eu quero curtir a vida.". Fiquei 15 dias, nunca tinha ficado mais uma semana, 10 dias no máximo.  

No 12º ida,  já a minha mulher reclamava saudade do cachorro, saudade de casa, e eu falei  "Graças a Deus que ela falou, porque eu não aguento mais, quero voltar.”. Eu voltei de viagem, voltei para o meu escritório e foi aí que o remontei equipe, consegui trazer alguns talentos para a empresa, consegui trazer um pouco da noção de uma empresa de capital aberto para dentro de uma empresa um dono. 

Então, eu tenho ao máximo colocado a minha cultura, mas também ao máximo questionado as decisões, sempre deixando as pessoas a vontade para criticar a minha decisão. Em 2010,  a gente já tinha voltado as atividades, já tinha feito um mega lançamento e tinha estabelecido como objetivo ser uma das 10 maiores empresas de São Paulo. Em todos esses anos, não lembro em qual chegamos na nona posição no mercado imobiliário de São Paulo. 

Como é que você está vendo essa inovação com a tecnologia? O que está pensando para o futuro da empresa?

Em termos de novas tecnologias, eu acho que é o setor que mais está atrasado, mas tem o que fazer. Vejo que as empresas estão correndo bastante atrás disso e nós aqui também estamos de olho nas novidades.

 Você é um cara ligado em tecnologia?

Eu sou jurássico, sou da época em que você não apertava botão, girava uma alavanca. Eu acho que não tem jeito, o caminho é esse. A velocidade é fundamental para estar à frente. 

 Como é que esse meio da diversidade está presente na Setin hoje?

A gente sempre tenta olhar com antecedência o que as pessoas pensam, como elas agem. Por exemplo, antes de ir para o centro, nós fizemos uma pesquisa para entender o que essas pessoas que moram no centro pensam e descobrimos uma coisa muito interessante que jogou a favor do nosso custo de obra. Então, isso ajudou a gente nos projetos a ser muito mais enxuto, muito mais econômico e poder vender melhor, muito mais barato. 

Então, nós estamos o tempo todo atento em ver o que está acontecendo lá fora e o que as pessoas pensam. Agora, não é fácil. Às vezes você tem que ofertar para pessoas, dizer assim "Olha, você precisa disso, embora você não saiba." 

E essa aproximação que vocês tão fazendo de tecnologia, startup, etc? 

Olha, é difícil de entender. Esses dias  me entusiasmei, por exemplo, por um portal da área comercial. Aí fui conversar com um amigo que está se interessando por isso, montando um fundo ele disse "Você é louco, não pode investir em um negócio desses. Você tem que investir nos negócios deste setor, tem que botar um pedacinho em cada negócio.". Então, estou vivendo isso, mas eu estou aprendendo, confesso a você que conheço muito pouco, é um negócio alucinante, tudo acontece ao mesmo tempo em todas as partes do mundo, em todas as áreas.

Na parte de sucessão, tem a Bianca, que é uma das suas filhas que está te acompanhando, mas como você está vendo isso? 

Esse assunto de sucessão é um assunto espinhoso muitas vezes, mas também muito rico. Especialmente, quando você tem uma série de filhos, tenho cinco filhos maiores, o menor deles acabou de fazer 23 e o maior acabou de fazer tem 41. 

E tive a felicidade de contratar uma empresa agora que fez um trabalho ao longo, de um ano, sobre sucessão. Ao final de todo esse trabalho, diminuíram as dúvidas e se construiu um planejamento sucessório onde sai aquele que ocuparia meu lugar na minha ausência, ou de repente, eu quero tirar férias de um ano ou de repente, vai que eu morra. Então já se elegeu essa pessoa, que é  Bianca. Os irmãos ungiram essa escolha, ou melhor, elegeram este leito e alguns dos irmãos ficaram então com essas outras incumbências. 

Essa conversa foi muito difícil, partiu de você? 

Existem várias dificuldades para você postergar, empurrar com a barriga. Eu diria que não foi uma guerra, não foi tão difícil, mas existia um filho que achava que era o melhor para poder ser o meu sucessor. E acabou entendendo que o lugar dele é outro. Ele é mais feliz lá e que o melhor é a irmã. Então, foi muito tranquilo. 

Para o jovem está começando agora, ou até mesmo para um filho seu, que mensagem que você passa, que recado que você dá de lições de empreender?

Primeiro, eu só acredito que você vai se dar bem fazendo o quê você gosta. Então, acordava todo dia cedo e é assim até hoje. Às vezes sou humano e tenho vontade de desistir, porque nos últimos tempos, especialmente, foram tempos muito difíceis, mas depois eu já estava aquecido e fazendo o que eu gosto, acreditando que tenho muito mais para fazer. Então, um conselho que eu dou é não ache que será fácil. Você tem que realmente perseguir e superar cada obstáculo sem achar que acabou, sem achar que é o momento de parar.

 Quando você olha a resolução de um terreno que teve um fim para cidade, foi desapropriado, como é que você vê essa essa questão? E hoje, passado um período, você olha isso com amargura? Como é que faz para virar a página?

Eu tenho uma facilidade, eu viro a chave e amanhã não lembro mais. Eu vou até o fim, vou às últimas consequências, eu sou persistente. Quando eu comprei esse terreno, há 15 anos atrás, eu sabia que ele tinha algumas dificuldades. Eu falei "Vou fazer um projeto e vou doar um parque.". O meu projeto de um terreno de 24 mil metros, tinha 16 mil metros de parque que eu iria fazer, entregar e manter pelo resto da vida, iria ser mantido pelo condomínio. Era um projeto sem muros, não tem muito empreendimento assim em São Paulo. Mas os ativistas liderados por um promotor lutaram, e eu, depois de 14 anos, não tive alternativa, tive que fazer um acordo e transformamos em potencial construtivo. Nós vamos entregar o parque, vamos começar agora construir, mas vai ser mantido pela prefeitura. 

Qual a dica do mercado imobiliário para o pessoal? A sua expectativa do mercado, seu recado final positivo?

No evento da Abrainc, que foi excepcional, brinquei que agradecia que eu não era mais convidado, porque tinha meu ponto de vista sempre muito ácido, mas que naquele dia a minha mensagem era muito positiva. E até vi algumas pessoas olhando para mim meio desconfiadas, tipo assim, "Esse cara está positivo demais.", mas eu acho, sinceramente, que nós estamos em um momento excepcional desse mercado e do país. 

Acredito que nós temos a chance de fazer o Brasil, especialmente, o setor imobiliário. Aquilo que a gente ainda não conhece por todas essas questões. O que a gente precisa agora é começar a criar empregos, consequentemente, começar a melhorar a renda daqueles que estão empregados. Por questões ainda de bate-boca político de algumas reformas, não se sentiu ainda confortável de sair para rua e comprar imóvel, mas é inevitável, porque a taxa de juros está chegando em torno de 1,5 a 2%. 

Então, acho que nós estamos no início de um processo muito positivo, estou muito otimista com isso. Isso comparado com as minhas mensagens de 2 anos atrás é da água para o vinho. Então, hoje eu posso dizer que você tem razão, o daqui para frente é muito positivo.

O que achou dessa entrevista? É legal conhecer a história de grandes nome do mercado e poder se inspirar para crescer ainda mais o setor. 

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