André Czitrom: O empresário que trouxe para o setor o conceito de imóveis com propósito

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No décimo episódio da série, conversamos com o André Ciztrom, CEO da Magik JC, uma empresa de empreendimentos imobiliários atuante no Brasil desde 1972.

O negócio é direcionado para segmentos econômicos, médio e alto padrão. Já foram construídos 150 empreendimentos imobiliários no Estado de São Paulo e entregues 12 mil unidades nas cidades de SP, Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Jundiaí, Sumaré, Guarujá e São Vicente.

Em 2009, a empresa começou a voltar seus projetos para o Programa Minha Casa Minha Vida, em SP, em parceria com a Caixa Econômica Federal. Uma forma que dar oportunidades para pessoas de baixa renda e que merecem ter o seu próprio imóvel.

André Ciztrom vem de uma família de imigrantes da Romênia, que veio para o Brasil na década de 50, onde recomeçaram suas vidas e contaram com apoio do povo brasileiro. O sentimento de gratidão está presente nos projetos imobiliários e na visão inovadora e democrática que o engenheiro possui.

Confira a transcrição da entrevista completa abaixo.

Conte um pouco da sua biografia.

 A Magik JC é uma empresa de 47 que foi fundada em 1972 pelo José Ciztrom, meu pai, meu sócio. E de lá para cá entregou mais de 150 empreendimentos imobiliários de todos os perfis - econômico, médio, médio-alto, horizontal, vertical, salas comerciais - aqui no Estado de São Paulo. 

Tem uma frase sua que eu li que é "Aprendi a importância da oportunidade" com seu avô e com o seu pai. Resgate um pouquinho da história deles da imigração da Romênia para o Brasil.

O meu avô, a minha avó e meu pai vieram da Romênia na década de 50. Eles não conseguiram fugir da Segunda Guerra Mundial e ficaram na Romênia, 9nde se instalou o comunismo naquela época. Então, quando o Ceauşescu entrou no  comando do país, dificultou que os sobreviventes da guerra saíssem de lá e aí só depois de  15 anos que eles vieram para o Brasil e começaram a vida de um modo, como que eu vou dizer, não-tradicional, mas comum do Imigrante daqui. Meu avô começou do zero no ramo de tecelagem, como operário de fábrica, e com sonho também de conseguir criar o filho único que um dia fosse engenheiro ou advogado. E aí meu pai entrou na faculdade de engenharia, no Mackenzie. Antes se formar, meu pai  montou a empresa dois anos depois de se formar, em 1972, e é essa empresa que a gente tem aqui hoje, operando. Uma das coisas que meu avô sempre falava para mim, quando conversava sobre a guerra e sobre os países ou da dificuldade que é o Brasil, é que a gente não pode esquecer da oportunidade que os brasileiros Estado de São Paulo deram para nossa família, que acolheram sem preconceito, um país que acolhe todas as religiões, polos, crenças. Nós começamos a repensar de que forma, por meio do nosso negócio, podíamos criar também oportunidades para as pessoas, não apenas para os clientes, mas também em todo ciclo da construção que acaba envolvendo a comunidade do entorno, as escolas públicas, os colaboradores de obra, os colaboradores da própria empresa... Não só clientes, mas colaboradores internos, vizinhos, instituições que tenham interesse em juntar forças e criar uma sociedade mais democrática, mais inclusiva e mais conectada. 

De onde vem essa formação sua? Você nasceu em um berço de incorporadores, mas essa parte diferente do mercado imobiliário está trazendo de onde?

Nosso setor é super tradicional e conservador, e eu respeito isso. É um mercado extremamente complexo, não difícil, mas muito complexo, e eu fui criado nesse ambiente. Acho que fazer uma pós-graduação história da arte, em 2014, me ajudou bastante a olhar a cidade de uma forma diferente. Então, essa visão mais humana de uma cidade contribuiu para que eu começasse a repensar - isso no lado mais pessoal. No profissional, em 2015/16, o país já estava no terceiro ou quarto ano de uma crise imobiliária. E a nossa geração, a minha geração, só pegou o mercado em ascendência e eu fui alertado sobre isso por algumas pessoas. Inclusive, meu pai falou "olha, essa crise é diferente, a gente já está indo pro terceiro ou quarto ano que o mercado não cresce e a gente nunca viu isso." Estudando sobre as crises imobiliárias, eu percebi que isso era verdade. Na época eu estava com o meu sócio, Roberto, na gestão da Sanay, empresa que faz empreendimentos de médio e alto padrão, e estávamos entregando dois prédios novos. Éramos jovens na época e a gente começou pela primeira vez ter dificuldade em vender, a dificuldade de lidar com crédito imobiliário. Eu falei que a gente tinha que repensar o que fazer, porque se o médio, médio-alto, salas, não está vendendo, então o que estava vendendo? Foi quando eu me dei conta de que habitação econômica estava vendendo, muito por conta do “Minha Casa, Minha Vida”, que era um produto que tinha liquidez. Então, depois de muito brainstorm, depois de rever o que eu queria para mim como pessoa física, que eu não sabia, mas estava tentando buscar um propósito. E então veio o convite mútuo de tentar trazer o expertise do meu pai no “Minha Casa, Minha Vida”, no setor tradicional e conservador, ainda mais no econômico, onde os fundamentos de obra econômicas são muito fortes, só que trazer para a região de desejo daquelas pessoas que víamos ficando no trânsito 5 horas por dia, no metrô, no ônibus. E aí nasceu o Bem Viver Centro. Tentando responder sua pergunta de alinhar os fundamentos conservadores no setor como o nosso, aproveitando um mercado líquido de habitação econômica, só que trazer para o centro de São Paulo e tentando humanizar o processo da incorporação, pensando em de que forma que nós, como produtores de habitação, podemos melhorar a vida das pessoas e dar oportunidade, então eu acho que esse foi um pouco da minha mudança de mindset pessoal - e eu não escondo que por 18 anos eu participei de projetos imobiliário muito parecidos com aqueles que hoje dizemos não querer. 

Quantos empreendimentos já foram feitos no centro?

Desde de 2016, com o Bem Viver Centro, temos 6 empreendimentos lançados, 5 entregues - é muito rápida a obra, uma obra de menos de 2 anos - e temos mais 10 empreendimentos para lançar ao longo dos próximos três, quatro anos. A Magik é uma empresa de 150 prédios ao longo desses 47 anos e fez de tudo, desde prédios econômicos até prédios de médio e alto luxo, salas comerciais, prédios, fizemos de tudo.

Me conta um pouco de como foi essa transição, tanto do seu processo pessoal de mudança de mindset quanto do seu processo de convencimento internamente. 

Eu tinha uma situação estranha de chegar como um sócio, filho do fundador e, mesmo sendo uma empresa pequena, cheia de jovens, é uma empresa conservadora, tradicional e que trabalhava junta há muito tempo. Então eu tive que ter a consciência de não chegar eventualmente querendo impor ou colocar coisas novas por dois motivos: primeiro porque não ia dar certo e segundo que não acho que essa é a forma de abordar questões de propostas ou de impacto, que se você impor, provavelmente em algum momento alguém vai pagar a conta ou não vai dar certo. Nós tivemos erros e acertos, então algumas situações lá atrás, quando a gente queria apresentar ou trazer um aspecto diferente para fazer um prédio do “Minha Casa, Minha Vida”, Josef subia pelas paredes e falava que não era hora. Os próprios projeto foram amadurecendo ao longo do tempo, então primeiros projetos foram feitos com os arquitetos que já estavam acostumados a trabalhar com Josef e hoje, já do quinto projeto para frente temos trabalhado com as pessoas que não são tradicionais do mercado e que conseguem impor e colocar uma arquitetura bacana que conversa com a região, com a cultura arquitetônica e social daquela comunidade. O relacionamento com os clientes foi bem difícil da gente mudar no começo porque a gente tem uma teoria de que por que não se aproximar dos clientes desde o início? Quando a gente sugeriu para o Josef fazer uma atividade com todos os compradores  no prédio em obras e fazer com que eles se apresentassem, ele falou "agora vocês estão muito loucos, vai colocar todos os leões numa jaula e vai se vestir de carne". Mas eu falei "pai, já estão nas redes sociais, já estão se falando, as conversas já estão acontecendo. Então, já existe as jaulas com os leões, vamos entrar lá e ouvir o que estão falando."

Como está funcionando essa humanização, o que mais estão fazendo em relação à isso?

A frase "não queriam ser a melhor empresa do São Paulo, mas melhores empresas para São Paulo" acabou sendo meio que uma consequência de algumas reuniões e workshops que a gente fez com os colaboradores internos, que a gente ainda faz de tentar colocar e discutir que é esse nosso Manifesto de propósito, que está online e hoje é público para todo mundo. A essência da frase veio quando a gente começou a pensar se a gente ia refazer a missão e o valor da empresa, onde começamos a olhar um pouquinho das empresas parceiras que a gente admira. E uma das coisas que incomodava, era que a gente falava que queria fazer no prazo, no custo, na qualidade, dando retorno aos acionistas e gerando sustentabilidade. Só que esse já é o nosso contrato social, o básico, e vender isso como um diferencial não é nada além do que nosso contrato, faz parte do nosso dia-a-dia. Assim, foi criado um o manifesto que muda a cada mês, a cada ano. Dividimos esse propósito em quatro etapas, que na verdade são atividades que fazemos. O primeiro pilar é a nossa chegada no local, onde ao invés de colocar o tradicional tapume, uma placa de teaser dizendo "aqui vai ter um empreendimento, aguarde", por que não chegar no canteiro de obra e contar para as pessoas que estão morando lá já 50 anos o que a gente vai fazer? Esse é um primeiro encontro com o vizinho, é um respeito com aqueles que estão morando lá há tanto tempo, então por que não chegar e conversar com eles e "olha, eu vou te incomodar, somos uma empresa assim, assim, assado, mas se eu te incomodar e eventualmente tiver alguma coisa fora da legislação, você me liga". E não foi fácil para a gente colocar uma placa dessa contando que iríamos fazer. Pensaram que estávamos loucos, que iríamos contar tudo antes da hora. Mas não é contar antes da hora, vamos participar todo mundo junto. O segundo pilar é o relacionamento com os futuros moradores e com os colaboradores de obra. Temos o pessoal chegando seis da manhã na obra e voltando para a casa de volta duas, três da manhã, então percebemos que a vida dele é o canteiro de obra. E vimos uma oportunidade imensa de poder contribuir com ascensão social, econômica ou cultural desses colaboradores. O terceiro pilar é pensar de que forma essa nossa experiência pode contribuir em um cenário mais público, de gestão pública. Como que podemos provocar a iniciativa privada e pública para democratizar e escalar a habitação? E começamos a perceber que é possível sim escalar, gerar mais de 100 mil residências, mesmo que não seja a Magik quem irá fazer, mas começamos a ver uma série de entraves em marcos regulatórios e nos colocamos à disposição para contar isso para Secretaria de Habitação e a Secretaria de Planejamento. Acho que uma iniciativa conjunta entre privado e público pode contribuir muito. E o quarto pilar é o mais importante que, feito tudo isso, será que as pessoas que estão vivendo naquela pequena comunidade, que criamos construindo prédios, estão mais felizes, mais conectados e eles melhoraram de qualidade de vida?

Esse primeiro pilar de vocês, muito alinhado também com os produtos e a parte de arquitetura que vocês tem feito, estão fugindo da questão da repetição e do natural das incorporadores de pegar o mesmo projeto “Minha Casa, Minha Vida” e replicar em qualquer lugar da cidade? A interação com o consumidor local ajuda nesse insumo de desenvolver projetos exclusivos para aquela região? 

Eu acho que sim, é uma questão que viemos trabalhando, como quando eu falei do primeiro projeto que lançamos, no dia 17, na Frei Caneca, a continuidade depois dele foi amadurecendo. Lá atrás, eu tinha um desejo de fazer o “Minha Casa, Minha Vida” no centro e convidar todos aqueles arquitetos que pessoalmente eu admirava e que nunca tinham trabalhado no setor imobiliário, muito menos no “Minha Casa, Minha Vida”. Conversei com uns 12 escritórios que eu admirava muito e a maioria deles, por coincidência, eram da região central. E eu tomei "não" de todo mundo. Então não deu muita liga, logo os primeiros projetos acabaram não sendo feitos com os arquitetos que a gente respeita e adora, mas já com os tradicionais. Esses prédios que saem carimbados, é diferente você fazer em São Mateus, é diferente de fazer na Mooca, no Brooklyn, porque são prédios completamente diferentes. Acho que a arquitetura de um prédio deveria traduzir muito do qual é o momento da cidade, não ter uma marca do arquiteto. O bom arquiteto é aquele que consegue colocar um programa, um desenho de personalidade, mas que conversa com o resto da região. E começamos a repensar, temos tempo, lançamos poucos projetos por ano, então vamos tentar fazer o melhor possível. A boa notícia é que esses arquitetos que a gente conversou no passado, hoje eles querem muito fazer projetos conosco. E não é algo "poxa, bem-feito, agora você quer" não, pelo contrário, conversamos muito com eles, temos até feito projetos com alguns, e é uma relação muito boa, porque de fato, esses arquitetos que são hoje são "fora" do dia-a-dia do mercado, tem uma discussão de programa de habitação muito rica. Infelizmente, essa situação, às vezes, só fica no meio acadêmico e não vem aqui para o meio da produção privada.

Agora vamos falar com Josef Ciztrom, que é uma lenda do mercado imobiliário, comemorando os 47 anos de conquistas da empresas. Conta um pouco desse desafio, desses 47 anos e agora com o filho começando a sucessão.

Dos 47, os últimos 3 foram extremamente gratificante, pois trabalhar com filho só para quem já trabalhou e de bem, que é raro. É outro mundo, ele tem um acelerador, eu procuro não colocar o freio e as ideias são diferentes, mas  com certeza tem dado certo está funcionando, estou até me acostumando.

Como foi esse processo de convencimento à toda essa mudança que trouxe a magia que tem feito nos últimos anos?

Ele foi muito esperto, fez bem devagarinho. Essa é a ideia do André de trabalhar o centro, que hoje é assunto de mídia o tempo todo, não tem um dia que não se fale do centro. É extremamente trabalhoso, mas é a forma que nós encontramos de trabalhar na ativação do centro, que é um sonho meu de rapaz. Nunca entendi porque que o centro andou ao contrário. E andando pelo mundo, você vê a grande cidade recuperando de alguma forma os seus centros. Isso não acontecia e as tentativas que eu vi foram inúmeras, não sei contar quantas eu vi. E dessa vez nós estamos participando na mudança verdadeira e é irreversível. O centro centro de São Paulo ganhou ganhou muita força.

O André estava contando aqui dos projetos, principalmente na parte arquitetônica, que são praticamente exclusivos e fogem um pouco do contra senso natural do projeto econômico, que você estava muito acostumado no passado, que é repetição, escala, mesmo projeto em todos os lugares. Como equacionar isso, especialmente na parte de custo?

No centro, é uma coisa impressionante, eu acho que são 30 milhões de pessoas que convergem. Não foi fácil entender que dá para fazer alguma coisa diferenciada com custo baixo, porque o capricho custa. Eu não sei o quanto, não dá para saber ainda o quanto o comprador avalia o projeto mais bonito que a gente está fazendo. Mas já tivemos as dúvidas quase respondidas no começo, que contratando pesquisas caras, particulares e etc, não respondiam, e o dia a dia respondeu. Agora, o quanto você agrega, não sei. Não é um não sei que eu não quero, que não devia ter feito, é um não sei. 

Agora, André, isso, até aliado à uma empresa Mobicorp, ela, foge um pouco também de só atender a necessidade básica e falar "a gente pode ir além, que cabe no custo, que cabe na margem", que às vezes não vai ter mais do que uma empresa de repetição tem, mas você consegue fazer isso aliando todos os pesos.

E é impossível assim, a gente não ficar surpreendido. Na Frei Caneca, que foi o primeiro, a gente consegue ver realmente as diferenças. Mas quando vamos ao Frei Caneca e vemos o prédio pronto, com esses pequenos diferenciais, na minha opinião, temos forte convicções de que o cliente está morando melhor. E, por exemplo, passando na frente do prédio, pensamos que temos orgulho de todos os prédios, mas quando se passa em um prédio que tem aquela cara mais charmosa, mais bacana, dá muito orgulho. Essa história de orgulho, uma das coisas que também me fez repensar foi uma série de insights e um deles que é muito importante, muito impactante para mim, foi lá em 2016 quando eu ainda não tinha provocado o Josef para trabalharmos juntos nessa ideia. Eu estava numa rua em Perdizes, no Pão de Açúcar, Rua Apiacás, em frente a um prédio que a Sanay, empresa que eu sou sócio, tinha recém-entregue. O prédio ficou bonito, bacana, um dormitório, 40 m, ficou bem bonito. Eu estava com a minha filha e ela não falava direito, mas ela sabia falar prédio, trabalho do pai... E eu inflei o peito na saída do supermercado e perguntei "sabe quem fez o prédio? O papai."  Ela ficou olhando e balbuciou um negócio que depois eu interpretei que ela falou assim "papai, quem mora aí?". Cheguei em casa falei com minha esposa que eu tomei uma pergunta da nossa filha que eu não soube responder. Porque eu vendi os apartamentos, e eu sei para quem eu vendi. Só que eu não sei se os compradores estão morando lá, eu não sei se estão os filhos, se o cara é investidor, se revendeu, se ele está feliz, se está usando a sala de ginástica que a gente fez, a cozinha gourmet que a gente fez. E eu falei "poxa, a gente só volta nos prédios para assistência técnica, isso está errado, temos que conversar com o cliente antes, tem que saber o que o faz mais feliz". Pensei no porquê de não podermos nos aproximar das pessoas, tanto dos os vizinhos, quantos futuros moradores para que a gente saiba se aquilo que a gente tá fazendo realmente está contribuindo para que vivam melhor.

Acho que, na verdade, estão criando um senso de comunidade e pertencimento. Quando você está trabalhando numa zona central de São Paulo, que não é tão grande e de repente tem o boca a boca. Está funcionando, de uma certa forma?

Funciona e tem um pouco a ver com que a gente falou de escalabilidade. É claro que, quando a gente topou o desafio de fazer o “Minha Casa, Minha Vida”, eu lembro que nós falávamos de fazer um projeto e replicar, ganhar no projeto do pavimento-tipo, ganhar nas formas, ganhar no arquiteto que vai fazer várias vezes o mesmo projeto... E percebemos que seria um erro gigante porque os terrenos são todos pequenos, um diferente do outro, com uma conformação irregular de um jeito outra com outro, então a gente nunca ia conseguir tipificar um programa fixo e fomos aprendendo isso ao longo dos terrenos. Então, quando a gente lançou o primeiro, decidimos fazer mais três e tentar ganhar alguma escala. Já tivemos a obra embargada por que era uma “Minha Casa, Minha Vida” em bairro nobre. Isso é uma tristeza, acho que isso é um problema muito mais na base de educação e cultura do brasileiro. Então teve gente que foi lá na época e não conseguiu comprar, por não ter se enquadrado no “Minha Casa, Minha Vida”, e está comprando hoje da gente no Bexiga. Então assim, aquela margem, que foi um pouco mais baixa, o marketing, o custo para o cliente, que foi mais alto, no Bixiga vai ser menor. Então vemos essa interação, o boca-a-boca, não só na questão do cliente saber que existe o Bem Viver lá no centro, mas o fato do cara ter conhecido no primeiro momento, não ter se enquadrado e tentar em uma outra oportunidade.

Um projeto muito bacana é do Aluguel Social. Pode contar para nós o que é esse projeto?

A gente começou a pensar o seguinte, por que que a gente não coloca na mesa pessoas da sociedade, pessoas amigos nossos, ou profissionais de outras áreas para discutir habitação? São eles que vão morar, não é a agência de publicidade, não é o construtor, o incorporador. Então, em um dia que fiquei super incomodado, eu falei a gente nunca vai conseguir viabilizar um projeto econômico para vender para baixíssima renda, pois a gente depende da Caixa Econômica, que é quase o único agente financiador. E quem ganha pouco, financia pouco no Brasil. Fui falar com algumas pessoas, as "lendas do mercado", para me abrir um pouco a mente dizendo que, poxa, não podemos depender só desses bancos. Eu fui falar com três pessoas, e os três falaram  "André, você é um mimado. That's is the game, é assim que vai funcionar". Acho que eu fiquei um pouco, não com com raiva, mas fiquei um pouco instigado a tentar achar uma solução. E em muita discussão, foi quando eu conheci o João da Gaia e o pessoal da Dínamo, que é uma aceleradora de startups de impacto social também, e falei “vamos juntos tentar criar isso, tem que ser possível”. E uma das soluções, não quer dizer que encontramos, pois não viabilizou ainda, mas talvez não seja pela aquisição, seja aquela locação, a gente chama de locação acessível e não social, porque eu acho que social deveria envolver a gestão pública, mas é uma forma de como conseguir fazer com que aquela pessoa que não conseguiu comprar um apartamento nosso e sonha morar aqui - eventualmente, o aluguel está muito caro -  como é que faz para trazer essa pessoa? Então nasceu do nosso esforço, há um ano e meio, a ideia de viabilizar prédios com essa característica aqui do prédio Bem Viver, mas destinado para pessoas para alugarem entre 700, 800, 900 reais. Eu acho que viabilizar, na nossa opinião, acho que comprar o terreno e construir, é commodity. E se abaixar o preço, vai baixar a rentabilidade e você vai achar um investidor que tope. Acho que viabilizar é depois de 10 anos você fazer uma gestão daquele negócio, daquele prédio, e ver que realmente trouxe pessoas, elas melhoraram a qualidade de vida delas morando no apartamento de 800 reais. Acho que a viabilidade está aí e essa é a dificuldade, ter gestão social que permita essa ascensão cultural e econômica dessa famílias eventualmente virão morar aqui.

Fala um pouco de como é a importância da arquitetura e como isso está sendo renovado. 

A gente acredita que a arquitetura tem um papel super importante, assim como da construção e incorporação, então, a gente atuar com arquitetos que entendam que aquele terreno não é uma quadra fiscal, um levantamento planialtimétrico, você que mandou por e-mail para eles se empate de uma rua, do bairro, de uma comunidade, faz total diferença. Os prédios são projetados e pensados respeitando as heranças culturais e históricas a região. O Josef hoje entende que isso é uma das nossas estratégias, seja estratégia de negócio, como parte do nosso propósito mesmo, a gente discute de forma muito saudável até que ponto a gente pode ir. E várias vezes ele recoloca a gente mais no chão, tentando colocar sempre os prédios no chão mesmo, para não ter transição do térreo para primeiro pavimento, e eu acho que é um aprendizado. O projeto do Isay provocou a gente para fazer janelas diferentes do nosso padrão. Então acho que isso foi um desafio e a gente conseguir se adaptar a isso e um, até publicamente que não tem nenhum problema dizer, um erro meu de estratégia de como levar esse assunto internamente. Nós discutimos um pouco como lidar com essa situação, mas mais uma vez, a experiência do Josef, junto com o pessoal de obras, resolveu de forma muito fácil, mas foi o item que realmente trouxe um pouco de discórdia. Então, foram algumas dificuldades, fizeram a gente pensar, saímos da facilidade da repetição. Acho que até melhor do que eu temia, pelo desconhecido dele trabalhando. 

Nessa história da incorporação, o que inspira você e o que não inspira?

Nós temos uma história muito forte, lá da década de 50 e 60, onde os grandes arquitetos, também fugidos da Europa, fizeram talvez o conjunto de prédios mais espetaculares que a cidade tem de São Paulo. Fazendo um parênteses aqui, uma propaganda com um amigo, o livro do Raul conta muito isso, Raul Juste Lores. O livro “São Paulo nas Alturas”, que fala dessa época de ouro entre os incorporadores e os arquitetos, onde tinha essa relação muito forte da arquitetura com a cidade, do desenvolvimento da cidade. E o centro de São Paulo, essa região acabou recebendo centenas de prédio desses arquitetos que, na minha opinião são os prédios mais bacanas que tem em São Paulo.

A pergunta dupla hoje, para duas gerações é: Josef, que aprendizado que você quis deixar, que você conseguiu deixar, para os seus filhos? 

 O aprendizado, que eu trago profissionalmente, acabou permeando naturalmente para o André quando nós trabalhamos em duas situações: um jovem recém-formado, alguns anos atrás, que trabalhava junto comigo, com o então sócio Levi, na Magik, eles copiaram, por osmose, a nossa forma de trabalhar, seguramente, e depois, uma satisfação enorme de voltar a trabalhar junto, eu com ele e ele comigo, já maduro, e em um mercado difícil, um mercado extremamente controlado mercado, vamos dizer, de subsistir tecnicamente, comercialmente, etc. Eu acho que o André vai carregar uma coisa que é uma declaração de que a gente não pode ser, nessa regulamentação absurda, que a gente sofre, lamentavelmente, nós somos controlados por gente que não tem a menor ideia do que nós fazemos de fato. A gente não erra, não é porque não é honesto, mas a gente não pode ser bobo de errar, porque tem todos os olhos possíveis e imaginários olhando para gente 24 horas por dia para que a gente não faça errado. Então, querendo ou não ,de uma automática,  com certeza o André vai levar, vai levar para os filhos dele, o não errar. E não errar é objetivamente, eu vou arriscar, eu vou errar. Na parte de ousar, me preocupa demais que, olhando para trás não tem empresa de 70 anos, não tem quase empresa de 50 anos, felizmente nós estamos com cinco décadas. É muito difícil você subsistir nesse mercado, os números são muito grandes, e a ousadia tem que ser pé no chão. Acho que ele leva isso.

E André, qual aprendizado ou qual legado você deixa para sua filha?

 A primeira coisa que me veio na cabeça quando você perguntou é que eu quero, e luto muito para ser um pai para os meus filhos como meu pai foi e tem sido para mim. Acho que em relação à legado para minha filha, para meus dois filhos, eu tenho dois filhos, a Carolina e o Benjamin, para minha esposa também e as pessoas ligadas a mim, eu trago do meu pai acho que a paixão, não só pela família, mas pelo que faz. Acho que se não for apaixonado você não sobrevivem nesse mercado sendo filho, sendo sócio, qualquer ligação, se você é colocado nesse mercado e não tem paixão, você vai sair dele muito rapidamente. Acho que deixo a é resiliência de, mesmo com paixão, a gente bate cabeça todos os dias, pois somos, como meu pai falou, controlados 24 horas todos os olhos possíveis. E eu acho que os fundamentos básicos e os fundamentos de ética mesmo, acho que eu trago muito deles e que eu acho que é imprescindível passar para o futuro dos nossos filhos de todo mundo.

Seu recado final, André, para nós, por gentileza.

É um super orgulho poder dividir um pouco dessas informações, ideias e propostas que a gente tem junto do meu pai, que além de pai é sócio, é um orgulho um prazer maior ainda. E eu confesso que, no dia que ele cansar, que acho que está longe de acontecer, pra mim vai ser um desafio imenso, porque sem essa experiência, sem esses fundamentos, a gente nem estaria conversando aqui porque eu não conseguiria ter imprimido isso, como nunca consegui antes numa outra empresa que não tivesse essas características que são naturalmente DNA do Josef.

Josef, o que vai nos deixar com a sua sabedoria e palavras finais do nosso podcast?

O que eu acho do meu filho, eu tenho um orgulho enorme de ter o André como filho e sócio. Não só respeito o que ele está fazendo, essa questão do novo contra o interior. 

Separamos para você mais esses episódios:

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