Elie Horn: os acertos e arrependimentos do nome por trás da Cyrela

Construcast
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Em parceria inédita, a CashMe, OLX e InfoMoney se uniram na criação do Construcast, o podcast que recebe CEOs de grandes empresas do ramo imobiliário para contar suas histórias.

No primeiro episódio, conversamos com Elie Horn, fundador da Cyrela. Ele revelou como foi o início de sua carreira e como enfrentou momentos de crise e quais foram os maiores aprendizados ao longo de mais de cinco décadas à frente de uma das maiores construtoras do país.

O Construcast é apresentado por Juliano Bello, co-founder da CashMe; Marcelo Dadian, diretor de imóveis da OLX; e Ricardo Reis, CEO do Reis Real Estate.

Conheça um pouco mais sobre Elie Horn, saiba sobre sua filosofia e como funcionam os seus princípios que levaram a Cyrela, fundada a mais de 50 anos, ser a maior empresa no mercado brasileiro. 

De acordo com Elie, se você persevera, é honesto, ético e trabalhador, você acaba ganhando sempre. Seu início foi comprando e vendendo apartamentos, sem dinheiro. Tinham um prazo para pagar, que era mais ou menos 90 dias e isso deu certo, venderam muitas unidades. Depois começaram a comprar e vender terrenos, pelo menos no princípio. Com a crise no setor imobiliário, não dava mais para ganhar dinheiro em cima dos incorporadores, então começaram a construir. Foi dessa forma, que a Cyrela decidiu abrir a Seller.

Em 2005, fizeram IPO, sigla para “Initial Public Offering”, ou “Oferta Pública Inicial” em português, que quando empresa receberá novos sócios realizando uma oferta de ações ao mercado. A ação subiu 30 vezes aquele ano.  Fundiram com as duas empresas parceiras,  o Soros e a Irsa, que fazia venda. “Abrimos em 60 cidades, tivemos muitos sócios, alguns inteligentes e outros muito menos, para não falar burros. E acabamos em apuros, crescemos e perdemos. Então, não foi nada inteligente a expansão do Brasil. Nossa vantagem é que a gente perseverou muito antigamente. E assim estamos vivos até hoje. Acho que o que ajuda a empresa a ficar viva e sólida, é a parte ética, a parte de honestidade e a parte de que nunca enganamos ninguém.”, diz Elie. 

Confira a entrevista com o fundador da Cyrela na íntegra. 

Um pouco antes da Cyrela e da sua vinda para o Brasil, qual a lembrança que o senhor tem? Como foi?

Nasci em Alepo, em 1944. Saímos de lá quando eu tinha 6 meses e vivemos no Líbano até os meus 10 anos. A lembrança foi que meu pai perdeu tudo quando eu tinha 7 anos, então isso foi uma época de sofrimento que durou até meus 19 anos, quando comecei a trabalhar vendendo produtos de porta em porta. 

O senhor é o filho caçula de 7 irmãos. Então era comum pegar as roupas dos irmãos mais velhos costuradas. E comprar o primeiro terno foi um marco muito importante para o senhor?

Era importante! O terno era azul-marinho com xadrez, ainda me lembro. Custou uns 3 mil cruzeiros na época.  

E por que entrar no ramo imobiliário?

Como meu pai havia perdido tudo, nós vivíamos no Brasil ajudados por parentes. Aqui, meu pai começou a comprar e vender apartamentos. Quando eu comecei a trabalhar, foi com o meu irmão de  maneira profissional. Começamos do zero e em dez anos a empresa ganhou, naquela época, 50 milhões de dólares.

Qual é a diferença do que o seu pai fazia para o que o senhor fazia?

Começamos a comprar imóveis de maneira em escala grande. Chegamos a ter 20/30 em estoque continuamente. Nós fizemos negócio com quase todo o mercado. A gente comprava um terreno, pagava 30%, em 90 dia e 60% em seis meses. Era obrigado a vender o terreno em 90 dias. Só que, em vez de vender, eu trocava, permuta contra a unidade do local com a consultora. Pegava o lucro das mesmas unidades, descontava no banco e pagava a dívida. Ganhamos muito dinheiro. 

Qual foi o momento mais duro da Cyrela, na sua visão?

O momento mais duro foi quando eu achei que o Brasil fosse uniforme economicamente e não é. Quando confundi as condições do Norte com Sul, eu me ferrei e ferrei a empresa. Em vez de ganhar dinheiro, nós perdemos uma fortuna. Como digo, o homem que não errou, não nasceu. Na época que nós expandimos muito, muita gente também expandiu, mas nossa vantagem foi que a gente enxugou rapidamente e reconheceu o erro. 

O dia que a Cyrela realmente assumiu a sucessão, você disse: "não vamos lançar tanto, vai vir a crise e vamos se preparar para vir uma nova empresa." 

E é isso que estamos vendo, uma nova empresa renovada. 

Somos a mesma empresa, mas renovada. Alguém falou para mim, uma pessoa muito inteligente do mercado, "é melhor você fazer uma boa sucessão, corrigir seus filhos em vida, porque na morte não dá mais". Então, passei o poder, perdi muitos votos, mas era preciso uma sucessão.  E a equipe é fantástica, os dois tem muitos talentos, de tal maneira que a empresa de hoje é melhor que a empresa do passado.

Como foi esse momento da transição da sucessão?

Me lembro de uma reunião que fizermos em uma sala. Passei o poder e chorei. É uma empresa que meu deu tudo que eu tenho na minha vida. Eu amo a Cyrela, não tem como não amar. Gosto dela como se fosse minha filha e foi aceito naturalmente por eles. Isso para mim foi uma grande realização. 

Uma característica sua, que enraizou na Cyrela, é de ter o conservadorismo financeiro muito forte, mas essa ambição de fazer negócio, como equilibrar a balança?

Acho que a questão é que tem que ser conservador, senão você quebra. Para não quebrar, tem que ter reserva. Nós adotamos um sistema que funciona até hoje: eu preciso parar de vender, preciso terminar as obras todas, pagar os bancos e ficar vivo ainda. Isso faz com que a empresa passe por  crises sem sofrer muito. Podemos errar, mas se você tem um cash-out conservador, você apanha menos, você vive. Quem vive, volta a viver de novo e pode crescer.

O que o senhor repetiria e o que não faria de novo?

Tudo menos a expansão. Apanhamos, não resolveu. Mas já foi, faz parte da vida. 

E dos princípios?

É ser ético, honesto e trabalhador. Temos vários exemplos de ética, um deles foi na Faria Lima. O primeiro prédio que a Cyrela teve, foi em 1960. A pessoa estava com um problema e quis que eu pagasse o dinheiro por fora, porque o irmão dele era deficiente. Eu não aceitei. Acabamos não comprando o terreno, fizemos a obra sem esse terreno.

Na parte comercial, qual é a dica que o senhor nos dá para poder financiar bem essa parte comercial?

Trabalhar, persistência, não ter auto-pena, ser simples, e humilde. Repito, você não vai ganhar muito, mas vai ganhar. Não sou gênio, mas sou persistente. 

Qual a maior conquista do senhor, desses mais de 50 anos de trabalho? O que o senhor considera como o maior valor que conseguiu?

Fazer filantropia, dar valor ao dinheiro. Em vez do dinheiro ser o monstro,egoísta, tem fazê-lo ser um dinheiro bom. Ou você escraviza o dinheiro ou o dinheiro te escraviza.  Não é deixar na gaveta, é fazer o bem para a humanidade. Hoje dedico 7/8 horas por dia à filantropia.

Da parte das empresas, das startups, da inovação da Cyrela. Ainda hoje, o senhor está inovando. Como é que vem essa semente de mudança?

A ambição leva você a inovar. Se você não inovar, você morre petrificado. Então, você precisa crescer, precisa abrir caminhos novos, precisa tentar. Então, essa vontade de inovar é velha na empresa, hoje está revitalizada, tem os modelos da atualidade. E se Deus quiser, isso não vai parar nunca.

Além de ser investidor, o senhor passou de investidor dos terrenos e imóveis para construtor. Como foi essa mudança?

Quando a crise do Brasil começou em 1976. Houve uma decisão, porque meu irmão não quis construir, então a gente se separou. Depois de construir prédios residenciais, passamos a fazer imóveis de renda também, junto com a Irsa e o Soros, em meado de 1990. Já começamos a inventar prédios. Eu adorava criar, inventar algo novo, para mim é como escrever um livro ou fazer uma tela. Prédios bonitos é uma necessidade de um construtor. Ficar bonito no tempo, é muito bom.

Uma marca importante da Cyrela é a arquitetura. O senhor prezou muito pela imagem.

Várias vezes eu fui em uma obra, não gostei daquilo que vi e mandei derrubar. A parte visual é fundamental. Meu primeiro prédio era uma vergonha, era muito feio. 

Quando a empresa começou, tinha diferença de preço entre comprador e vendedor. O Roberto Setubal (ex-presidente do Banco Itaú), foi um comprador de 2010. A diferença de preço era de U$ 30 mil, mais ou menos, para os dias de hoje. Fechamos negócio. Ele pagou o que eu queria, para mim e para a caridade. Fizemos assim com várias outras pessoas.

A sua filantropia é muito forte. Como que veio essa filantropia? O seu pai foi a inspiração?

Meu pai foi a inspiração, ele doou tudo o que tinha para a caridade. Me deu uma lição de vida que eu tentei seguir. Fazer o bem, faz muito bem. Vou replicar tudo o quanto é bem possível.

O senhor sempre trouxe muito essa cultura para a Cyrela de filantropia, de doar, fazer o bem, está muito enraizado. Com a sua saída da presidência, o senhor começou a acelerar muito as ações de filantropia. Qual é o legado que o senhor quer deixar?

Primeiro que estamos aqui na Terra como passagem, que tem um Deus que nos testa, por alguma razão. E nosso teste como empresário é mexer com dinheiro. Então, o meu teste é com o dinheiro, se doou ou não doou. 

Além de seus pais, quais pessoas te inspiram?

Meu avô, que não conheci. Em 1914, ele fez um lugar para 3 mil pessoas e crianças viverem, na Primeira Guerra Mundial. 

Lembro de uma proposta do senhor que incentivava as empresas do setor imobiliário a doarem 1% do lucro. Como é ser o porta-voz do setor, de conseguir que outras empresas aderiram à isso ou pessoa física, em cada doação dessa forma?

Levantar dinheiro não é difícil, é só bater na porta. Eu não tenho vergonha de pedir, não é para mim. Vamos ter persistência para conseguir e vamos reverter a situação.

E na parte pessoal, da rotina, os hábitos que o senhor tem, como é que funciona?

Acordo de madrugada, como tenho Parkinson, faço 2 horas de fisioterapia por dia. Depois, eu venho no escritório, faço a filantropia, fico xeretando um pouco o que se faz dentro da área comercial, dou meus palpites. Não consigo ficar parado. 

Eu viajo, em média, um mês e meio por ano, faço isso há 40 anos, não mudei de costume. Só que hoje minhas viagens não são mais turismo, são estudos, seminários, reuniões com jovens. 

Quão importante é trabalhar em uma empresa que tem um impacto social positivo? 

Na empresa tem o lema: "fazer o bem, faz bem!". Se não faz o bem, para que você vive? Você fica até meio supérfluo. Isso não tem sentido na vida.

O que inspira o senhor em relação a filmes, livros?

Livros, gosto de livros espirituais. Adoro ler, pena que hoje não está na moda, hoje é mais pelo computador, mas eu preciso tocar o livro com a mão. 

A ideia é inspirar mais pessoas com a sua história.

Quanto mais inspirar, melhor é. Aliás, até uns 4 anos atrás eu não falava, falava quase nunca. Espero que isso ajuda quem quer que seja. Uma vez, me perguntaram o que eu queria que escrevessem na minha lápide e eu disse "esse homem tentou fazer o bem". Estou tentando, porque nunca ninguém consegue. A ideia é chegar cada dia mais perto.

Para o futuro, o que imagina para o Brasil? O que está na sua visão?

Sou muito otimista sobre Brasil. Não sou pessimista, quem tem medo não faz nada. 

E para o mercado imobiliário?

Acho que está indo bem, mas vai melhorar muito mais ainda. 

O que achou dessa entrevista? É legal conhecer a história de grandes nome do mercado e poder se inspirar para crescer ainda mais o setor. 

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